sexta-feira, 21 de abril de 2017

Ô MAR SALGADO!

Ô MAR SALGADO!

Até que enfim. O patriarca com toda a família iria à praia; não conheciam o mar. Sonho em anos de planos e economias. O auge era Guarapari/ES. Chique, uai! Também, da malvadeza das areias; “Se não causam, precipitam aquele câncer encoberto e tapeado que aparece e mata quem de ousar naquela bomba atômica, mãe e madrasta da desgraça”. Na boca pequena: “Fulana chegou de Guarapari. Na semana seguinte começou mal estar e não aturou um mês; Morreu. Você acredita minha filha? De câncer!” Ou: “Uma amiga da minha prima...” Quando não: “A prima de minha amiga, moça nova. Você acredita que ela passou férias em Guarapari. Chegou toda alegre, fotografias na praia com o noivo. Menina!... Passou mal. Os médicos: - É Câncer. Não aturou um mês”. Do maldizer o velho aquilatou; inveja.
Então, comprou velha Veraneio de caber toda família. Despendeu cara mecânica durante um ano. Mas, as bagagens e comida para tanta gente? Ajuntou mais cobres a usada carreta de acoplar na Chevrolet. Acomodou a mulher, filhos, noras, genros, netos e bagulhos. Chispou.
Na praia, depois de degustada a água marinha, a velha precipitou; Morte súbita. Médico, amigo de infância de um filho, morava lá; Atestou o óbito. E agora? Translado do corpo; caríssimo! Orçamento familiar empenhado nos próximos anos. Na pobreza, as dificuldades são maiores. Enterrar a velha em Guarapari. O velho arapuou:
- De todo, uai! Minha velha aqui? Lá nascemos, casamos, constituímos família e seremos enterrados. Ela morreu de alegria. Sonhava com o mar. Confirmar se aquele borbotão era, mesmo, água salgada. Queria experimentar e passar férias na praia. Ela volta comigo, no fundo da carreta. Colocamos as tralhas por riba. Passamos nas barreiras e ninguém vai dar conta.
- Pai, isso é crime. É perigoso. Se a polícia pega, vai nos encravar!...
- Temos o atestado do médico e o corpo. Não temos dinheiro e ninguém vai pagar o traslado. Minha velha não vai ficar aqui. Corro o risco.
De noite, por mais segura falta de fiscalização, tomaram a estrada, carro vomitando gentes, apesar da vaga cedida pela vó, agora na carreta. Carpido trecho, o motorista determinou:
- Ao café, antes do sono. Não posso cansar nem o pai dirigir, com tanta emoção.
Na paragem convencional, cheia de veículos e gentes, todos desceram. Ao voltarem ao carro...
- Cadê a carreta, gente?
Roubada. E, agora? Como queixar à polícia? O velho:
- Se a gente der queixa, vou preso. Aí encrava, mais. Além da queda, coice!...
De emoção, susto e aperto o velho trancou a caixa; ele tinha uma fraqueza no bronze. Aí, tiveram outro trabalho. Voltaram com mais despesas e o velho, enterrado na própria terra.

Quanto à velha, até hoje, a família não sabe o destino da carreta nem do corpo nem se ela foi enterrada. Só sabem que, naquele ano foram férias de realizar o sonho; Conheceram a praia e confirmaram; ô mar salgado!...

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