domingo, 19 de fevereiro de 2017

UM ÓLEO SAGRADO...

 UM ÓLEO SAGRADO...

O jovem Chico Estrela campeava uma esposa. Peter, gerente da Concessionária Chevrolet, negociava um caminhão com o pai do Chico. Oportunidade negocial aproximou Helga, lourinha filha do Peter, de ascendência alemã, e o mameluco Chico; se enamoraram.
Nos anos trinta, o critério paterno escolhia o consorte à filha. Chico desprovia-se dos requisitos. Contudo, encontros entre os dois e contrariedades paternas, se avolumavam.
Nos grandes quintais, ao proveito, criavam-se galinhas a ciscar e porcos às lavagens da cozinha; banha e carnes à economia doméstica. Carne de boi; raridade aos de poucas posses. Só aos mais abastados, do eventual ao diário. Peter anunciou:
- No fim desta semana, mato um capado.
Chico se prontificou. Mostraria serviço. Apetrechou-se. Montou no seu cavalo Andorinha; branco alval em luzidia arreata adquirida na Selaria Gaúcha. Manhã, cedinho; lá compareceu. Abateu. Sapecou. Eviscerou. Esquartejou o animal. Dispensou as carnes aos embutidos e salga; Não havia geladeira. Helga encantou-se!... Contudo, insuficiente aos critérios paternos. Mesmo assim, Peter engrandeceu o feitio e o feitor:
- Chico, você já pode casar. Será o primeiro a experimentar essa carne - e pôs a esposa para correr da cozinha. Ela admirou:
- Peter!... Você cozinhando?
- Deixa comigo!... Sai d’aqui, mulher. Some – em falas de o Chico escutar.
Peter tafulou-se na fumaça ao lado do fogão de lenha, com generoso naco de lombo e o fez de encomenda. Quão bem enfeitou, mais que ardil ao pretendente de genro. Mesa posta. Peter serviu a suculência a ele. Recomendou-lhe:
- Cozinha europeia. Alemã. Aproveite meu caro Chico. A oportunidade te abre portas.
Chico, airoso, levou à boca, mastigou e engoliu o primeiro, segundo, terceiro nacos e... Bastaram. Estatelam-se seus olhos. Suor frio o ensopou. Retesaram-se os glúteos. Seus intestinos reverberados, revoltos, indômitos. Nada os impediam em ameaças descontroladas à saída. Borborejavam incontidos. Revoltos e insolentes, vexados, estrepitosos. Deseducados e cruéis ao Chico, em desconfortáveis e repetidas notas fá, de iniciante no trompete.
Chico levantou-se lépido ao cavalo. Trespassava a perna à montaria. Desobedientes dejetos derrearam-se de súbito nas calças e botas transbordadas, breada a sela e o cavalo de respingos rescendidos ao ar. Chico sumiu num galope envergonhado. Nunca mais se viram.
Idoso, meu sogro contava rindo, cercado dos netos, aprendizes daquela experiência:
- Soube do preparo. Eficiente. Um óleo sagrado para espantar namorado. Fui o último. Mas, ela também encravou... Morreu encalhada e ele sem neto. Tomou orgulhoso!...
E se estalava em gargalhadas, de ainda, eu as ouvir, saudoso.

Dr. Josemar Alvarenga / 2017

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