terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Um Caso Padrão

UM CASO PADRÃO

Presidente do Sindicato Rural, Coronel Vívio comprava votos com pela-jegue; sopa de canjiquinha quente em lata de leite pelava o lombo do animal de transporte e inspirou o nome dessa Bolsa Alimentação. Cedia suas terras às lavouras à meia, à terça, à quarta; Bolsa ao Sem Terra. Alocava no pau-a-pique o povo na Minha Casa Minha Dívida; projetos sociais caboclos de então, para manter o feudo e o coronelismo. Isso no Jequitinhonha, de setenta.

Nas eleições, seus paus mandados tiravam os eleitores da cama na vigia e ao som de tambores; nos currais de gado, nas fazendas; na cidade, no seu imenso quintal, na sede do partido, nos correios e no grupo escolar. Servia também pão com mortadela, broa de fubá e garapa. Libertos só após botarem o voto: “Para não bandear”.

Ganha a eleição; viva as benesses. Quanto aos “traidores”. Derrotado; dissolvia na chibata os da quinta-coluna, sem quaisquer direitos os dispensava sem olharem para traz.

Comprava adeptos com comida, moradia, roupas velhas, assistência social. Dominava o Hospital Filantrópico, Clube de Mães, Futebol; por aí caminhava a “caridade”. Economia municipal, fruto do humano Coronel “Pai dos Pobres”; empanturrado de dinheiro, titulado, medalhado a rodo; grande estadista promotor da igualdade social, defensor das minorias. Senhor feudal desde antes do município em seus ancestrais; criadores de zebu e cavalo Manga-larga-marchador.

Opositores eram essenciais. Lógico! Até cultivados da orientação partidária a configurar democracia. Oposição permitida só a alguns tolos; o tempo os rompeu com o mando e não levavam nada na política. Caso levassem, interposições à gestão; mentirada, maledicência ao eleito, aos amigos e famílias levou a alguns suicídios. Vívio vangloriava: “Política é aos de culhões. Não aos fracos de caráter nem de dinheiro; muito menos mulherzinha”. O “Salvador da Pátria” dominava o município por décadas, ajudado por sua religiosa esposa, a atrasada e acabada Coronela Dona Ilma “Mãe dos Pobres”. Vívio facilitou...

De sirigaitas em pencas e a pior, a bela Roseclayr. Rose o acompanhava aos encontros com o governador, deputados ou chefe do partido, em BH ou Brasília. Ilma arapuou. Deu em nada a não ser no carro e suntuosa casa na Boa Vista, além de força política; Rose virou representante do Vívio. Ilma vaticinou: “Adultério; das mais pecaminosas condenações bíblicas. Sem o seu abandono com reparo no perdão, será a sua ruína”. Nisso, o PADRÃO chegou...

A paróquia em terras concedidas pelos ancestrais do Coronel às mãos franciscanas. De início, com muito apoio dedicado ao acontecendo, para mais acontecer.  Escolhido a dedo, o pároco Frei Jöhans Joachim; destemido alemão de sotaque gutural e forte, mais de dois metros de homem pançudo, opulento, de boníssima alma em franco opositor ao Coronel e adorado pelo povo. Com recursos alemães montou a Rádio do Jequitinhonha; Hora do Ângelus, evangelizava, metia inclemente bordana nas indecências, corrupções, desmandos desairados. Sem citar o santo, a carapuça entrava... Vívio embasbacado embrabeceu. Perdeu prestígio, eleições graças ao Padrão. Contudo, a Coronela fervorosa: “Jamais abandonarei Jesus, meu Deus e Salvador, pelo amor de quem a tudo fiz e faço em devoção. Jesus, minha salvação. Sem ele, jamais aguentaria tanta humilhação”.

Companhia de Águas e Esgotos de Minas Gerais se instalava no lugar. Ilma, declinada primeira      usufrutuária, na reunião paroquial. Não consultou ao marido; em causas da Rose. Na prévia à instalação do ponto de águas, comitiva com fotógrafo, de comando técnico em BH, recebida pela empregada de levar ao Vívio:

 - Coronel, a COPASA taí. Onde vai colocar o padrão.

- Na puta-que-o-pariu. Lá nas Alemanha, que é o lugar de sujeito atrevido, entrão, desrespeitador. Salafrário na minha casa? Quebro o pau... Isso é mexida da rezadeira me infernizando.  PADRÃO aqui é na bala. Quer vê...


E saiu à rua babando ódio, revólver em punho em escaramuças aos de nada entender...


Dr. Josemar Alvarenga / 2017

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