domingo, 5 de fevereiro de 2017

A Gente Tem Que Ter Uma Mulher...

A Gente Tem Que Ter Uma Mulher...

Aos oitenta e quatro anos, trajes descuidados, notória falta de banho, grandes cabelos desgrenhados, barbado, consciente e só, deu-se ao consultório. Queixava-se de dores vagas, generalizadas e desmotivação acentuada. Deprimido:
- Doutor, depois de casado por cinquenta e quatro anos, há dois anos enviuvei. Não vivia muito bem com a mulher; é verdade. Mas, minha vida piorou muito. Tenho dois filhos. Um mora no Canadá. Outra, na Espanha. Nem conheço os netos. Fiquei comigo. Fiz barraco no fundo do terreno de minha mãe deixar. Na frente, antiga casa dela, mora meu irmão e família. Vendi minha casa e pertences antigos. Vivo com o necessário. Desanimo fazer minha comida e até comer. Vivo deitado. A vida perdeu o motivo, o sentido e a graça. Espero a morte. Até chamo por ela que, se faz de surda e não vem e, se escuta não me obedece. É triste.
- E seu irmão? Seus sobrinhos?
- Cada qual tem seu fazer, seu cantinho e sua hora; seu fuso e sua roca, seu fio e seu tear. Vivo e ando só. Ninguém tem tempo para um homem velho. Sou fim de estrada. O que posso dar? Sou noite sem luz, sem luar nem estrela. Sou um apagão que ainda não escureceu.
- Nada disso. Frequente o Grupo da Terceira Idade. Paróquias, mesmo igrejas, SESC e outras entidades mantêm esse apoio. Aposentados, viúvos, idosos lá se encontram, conversam, jogam, brincam, dançam, fazem artesanato, teatro, passeiam. Ocupam o tempo. Não fique só.
- Sou muito bem aposentado dos Correios. Fui garçom, também. Ainda, toco clarineta. Tinha um conjunto. Tocávamos todo fim de semana. Animávamos bailes nessas redondezas de Belo Horizonte. Toquei para a Clara Nunes cantar, no Renascença; mulher bonita!
- Então!... Há algum desses músicos vivo? Ou arrume outros e refaça a banda.
- Eles eram meninos. Alguns ainda vivem.
- Convide a eles, forme novo grupo. Faça o que você gosta. Tenha prazer. Volte a tocar. Arranje uma companheira, uma namorada. Não se entregue. Isso lhe fará bem, melhor que remédios.
- Vou ajuntar um grupo. Mas, namorada!... Pra quê? Não dou conta. Isso é passado.
- Namorada não é só sexo. Faz parte da sexualidade a fala, a companhia, o encontro, o contato, o carinho e pode resultar em sexo. Arranje uma companheira. Você verá a mudança.
- Vou ver. Só sei que, na velhice e sozinho, é só tristeza. Não vejo saída.
Seis meses depois, ele voltou ao consultório; Banho tomado, cabelos e barbas aparados, bem penteado em trajes de alinho e perfume. Efusivo, animada falação. Ótimo astral. Disse-me:

- Doutor, minha vida mudou demais! Sem dor e animado, quero viver e muito, ainda. Vim para agradecer ao senhor, por me mostrar a verdade. Vida sem mulher não vale nada. Mulher é a rainha da vida. A gente tem que ter uma mulher... Nem que seja só pra brigar!

Josemar Alvarenga - 2017

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