segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Lorde; Lenda Urbana

LORDE; LENDA URBANA

Minha casa dista quinhentos metros da Avenida Doze de Outubro, sobre o capeado Córrego do Nado, afluente do Vilarinho, seu desemboque a cerca de dois quilômetros. Ambos, emissores de esgoto da imensa bacia do Córrego do Vilarinho, capeado sob a avenida de mesmo nome. Em admirável e clássico erro de engenharia, a área, grande criadora de ratazanas, é recordista em desastrosas enchentes em Belo Horizonte. Estrepitosas da divulgação midiática nacional. Minha casa fica em desnível significativo, salva de nem poder ver as enchentes. Temos notícias. Interposta a casa e aos vaus, largas avenidas, ruas, prédios comerciais e domiciliares, vasta área bem urbanizada. Mesmo assim, pelo esgoto, ratazanas dão-se a casa.
Vitimado, quando criança, por mordidas de cachorros. Por quatro vezes me laceraram.  Trago marca no lábio superior direito, cicatriz de um cão Fila Nacional. Tenho ojeriza deles e sou obrigado a tolerar cinco, no sitio de meus filhos em Capim Branco, onde meu lazer. Além de cães, meu pai era apaixonado por gatos. Andava e os bichanos entre suas pernas, roçando, querendo leite. Carinhoso, ele os servia em um pires.
Tenho receio de gatos; doença da arranhadura do gato, hidrofobia. Toxicoplasmose me mete medo; microcefalia, cegueira. Tive irmão de criação levado à fazenda para minha mãe enterrá-lo. Indiozinho da tribo Gê, recém-nato molambo. Sua mãe Ana e o pai Chico Bravo levaram-no aos recursos. Do contrário, matá-lo-iam; hábito indígena de eliminação dos natos incapazes.  Minha mãe o tomou a si e junto ao farmacêutico, irmão de meu pai, o tio Antônio, criaram órteses para sustentar a cabeça do infante de pescoço mole. O ensinaram a andar, a balbuciar palavras e atividades auxiliares domésticas. Ele sobreviveu. Minha mãe e ele conversavam e se entendiam em linguajar próprio. Meus pais e o tio faleceram. Minha irmã caçula, Miriam, tomou conta do Sebastião até vir a falecer, aos setenta anos.
Sou notívago. Nas madrugadas estudo, escrevo, vejo televisão. Apesar dos cuidados e da limpeza, olha os ratos jogando truco na sala, na biblioteca e onde for. Remédio para matar ratos; a solução. Seria? Ratos são estrategistas à sobrevivência. Selecionam entre eles os primeiros comedores; velhos, doentes e fracos. Caso morram perto das iscas, ordem invisível determina; hígidos, fêmeas em reprodução e filhotes não comam. Assim, continuam os roedores em cópula e suas fêmeas engravidam dias antes de parir. Parem já grávidas. Desmamam em quase imediato nascer de outra barrigada. Praga. As iscas têm que matar distante de onde eles as comem. Os danados vão morrer nos cantos, nas tocas, entre livros, nos seus ninhos e os cadáveres apodrecem, fedem. Onde o rato morto? Inferno.
Vejo televisão deitado no sofá. Às vezes, cochilo. Assim, senti algo me roçar a mão pendente, fora do sofá. Depois, roçava meu pé em igual situar. Que diabo é isso? Abri meus olhos ao lindo gato persa marrom escuro avermelhado e olhos azulados claros. Ele subiu no sofá e deitou-se entre minhas pernas. Continuei a soneca e ele, lá. Acordei. Levantei e ele, idem. Saí à cozinha e ele atrás, roçando em minhas pernas, miando. Lembrei meu pai. Tomei de um pires e o enchi de leite. O ofereci. Ele bebeu e agarrou-se a mim. Chego para almoçar, ele vem e se posta no meu colo. Deito no sofá, ele entre minhas pernas. Não sei quem adotou a quem. Embora nunca o tenha visto matá-los, os ratos sumiram. Passei a tratar do bichano.
Apareceram outros gatos. Ele trouxe uma gata com quatro gatinhos. Dois deles ficaram; um casal. A gatinha pariu. Nasceram quatro gatinhos que os netos vêm à casa só para brincar com eles. O gato persa, às vezes some e reaparece carinhoso como só; rabo estendido, elegante, passos compassados, simétricos, graciosos e comedidos querendo atenção. Roça em mim e pede comida. Ele lidera a turma e compro um saco de ração de dez quilos a cada quinze dias.
Esse é o Lorde, assim posto por meus netos, em eleição democrática, para lhe escolher e o batizar de nome. Meu amigo Adilson de Castro quis castrá-lo. Dei-lhe ultimato:
- Se castrar o gato, Adilson, de Castro também.

O gato continua lá. E, não se fala mais nisso.

Dr. Josemar Alvarenga

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