segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

HOJE NÃO É SEGUNDA FEIRA...

HOJE NÃO É SEGUNDA FEIRA...
                                                             
Casal de há muitos anos conviver, não deve se descuidar. Faltar respeito aos limites, um do outro, gera angústia. Mínimas querelas se agigantam em deteriorado relacionamento. Nota-se o desgaste no trato, desdouros até na impostação de voz, grosserias. Nasce o mando, a censura, a verdade absoluta; nada mais que o erro de um sobre o outro. Cresce do nada, o desrespeito, a intolerância inimiga. A convivência deve obedecer ao “mais amor e menos confiança”.
Década de setenta, médico no interior, eu atendia casal além das bodas de ouro, pequenos fazendeiros. O marido, primeiro no consultório, queixava da impontualidade da mulher, de dever estar com ele:
- Doutor, minha mulher já vem. Está no fala que fala com a amiga dela. É teimosa, pirracenta e de ciúmes. Se eu chamar, dá briga. Não sei aonde ia minha cabeça, ao casar. Fala o que acha que sabe. E briga por conta. Chega a me talhar o sangue; o prazer dela. Não obedece ao horário, não! E não tem jeito. É do contra. Alegria dela é me contrariar. Ela me ajudou muito. Mas, é complicada... Pelejei e consegui ligar luz elétrica na nossa casa. Ela brigou. Protestou: - Inventar moda para o diabo demover cristãos, da vida simples. Jesus deixou outro exemplo - só pirraça e vontade de contrariar. Ela perde a noção do que faz e fala; repenica de faniquito aos gritos e gaguejos. À noite, lâmpada acessa, ela, por vontade, tropeça em si e cai. Culpa a escuridão. Depois de instalar a luz elétrica, ela não enxerga, mais. Tateia a caixa-de-fósforos ali, fingindo escuro. Acende o fifó de querosene. O mundo melhor alumiado, pela elétrica, ela fala: - Graças a Deus! Agora vi a luz que alumia! - só pode ser o cão.
A esposa chega. Ele aproveita e sovela:
- Não repara doutor, essa mulher é do relógio desregrado do normal. É contrário do horário da combina, do compromisso – ela não gostou:
- Que isso! Sem compromisso é você que não se lembra daquele caso que eu já perdoei. Acolhia uma amiga em dificuldades. Comadre Lia mulher do compadre Zé de Binha, companheira do Apostolado de Oração daqui da Paróquia da Imaculada Conceição, do Padre Jessé. Filha do Manuel de Neném, compadre de papai. Ele batizou o Taquinho, meu irmão mais velho e é tio de Dondinha, minha prima. A gente não se via há muito tempo, sem falar. O menino dela está internado neste hospital. Perrengou de pneumonia e pleuriz; é perigoso, doutor? É o Quim de Dô, aquele de separar da mulher legítima dele, a Geralda da Anésia, mulher honesta. Trocou pela sirigaita Sônia de Dozinho. Deus me perdoe. Não se deve falar mal dos outros. Mas, a verdade precisa ser dita. Quase deu morte! Marido da Sônia atirou nele. Por sorte, não pegou. Agora, você sabe quem é. Então, eu ajudava uma mãe aflita. É o amor em Cristo. Sem compromisso é você... - e começou a discussão.
- Nós dois marcamos a consulta para hoje, segunda-feira, nesta hora. Não foi?  Fica atenta, uai!... Doutor tem outros atendimentos. Vai ficar por sua conta?
- Você é muito chato. Mandão! Implicante! Sem paciência! Só vale o que você quer, pensa e manda. Tenho que ficar por sua conta, ao seu dispor e de boca calada. Você é teimoso e tem mais, hoje não é segunda-feira, não. Viu!... Seu sabichão.
- Como não? Que dia é hoje, então?
- É o primeiro dia depois de domingo.
- Ah! O primeiro dia depois de domingo é o quê?
- É o primeiro dia antes de terça-feira.
- Antes da terça só pode ser segunda-feira?
- Foi isso que eu falei. Mas, você gosta de implicar. Tirou a palavra da minha boca para falar que você é o certo, o sabe tudo. Todo mundo sabe que dia é hoje. Não precisa perguntar. Mas, perguntou para provocar. Adora discutir, brigar. Toda vez é assim; grosseiro ou fica calado. Fora disso, não serve. Desde que casamos é desse jeito. Se arrependimento matasse!...
- Eu já estaria morto.

Ela não aguentou; começou a chorar. E, ambos, sem se olharem, constrangidos, emudeceram.  

Josemar Alvarenga

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