quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

ABA DE BONÉ; UMA URGÊNCIA CIRÚRGICA!...

 ABA DE BONÉ; UMA URGÊNCIA CIRÚRGICA!...
                                                    
Década de setenta, o Sertão Roseano queimava em carvoeiras. Consumava o desmate do cerrado. O Governo Federal no Polo Centro marchava em conquista do centro oeste brasileiro e transformava o Brasil da Costa Atlântica em quase continental.
Era sexta-feira de inverno e anoitecia. No lance superior da escadaria, acesso principal ao Hospital Imaculada Conceição, no lusco-fusco do dia se despedindo divisei no acostamento:
Desceu do fusca furta cor, de tanto empoeirado, um homem com aba estranha na testa; parecia largo, atabalhoado, engraçado, descomunal; enfim, indescritível boné de palhaço. Ele, mais empoeirado que o carro, mais imundo do que nunca, retinto de sangue da cabeça aos pés, amparado por um bom samaritano.
Aba de ser nada mais que uma foice encravada na testa infeliz, envolta no emaranhado de sisal em besunto de lama de terra vermelha e sangue; claro manifesto da brutalidade dominante. Figura sinistra. Assustadora. Horripilante. Socorria ao infortunado, o dono da carvoeira onde o ocorrido. A mim, ele relatou:
- Fim de semana; fui pagar aos homens. Encontrei esse ingriseu. Esse aí; o conheço por Tiborna. Desconheço o batismo. Ele bebe qualquer xangüana; por isso o apelido de xaropada. Se não cuidar e botar passo, vive bêbado. Brigador. Mas, homem trabalhador. Gente boa.
Tiborna espevitou Zé Mulinha, outro carvoeiro, por conta de um nada; uma mulherzinha atoa, tipo besta, do uso na diversão deles e há de ter outros, também, no uso fruto da mulher pública. Trem feio, de não valer pataca e ordinária. Mas, no mato ou onde nada é nada, qualquer brilho é ouro, qualquer trem é trem e tudo é tudo; basta o peão botar sentido e cobiçar. Briga boba, por ciúmes.
Tiborna é forte. Mulinha, apesar do avantajado - eles é que falam e isso, eu nunca vi. Desconheço de presença. Só repasso por ouvir falar e talvez, isso ser um dos motivos da peleja entre os dois. Mulinha é sujeito de porte miúdo. Mas acha que tem o corpo fechado contra tiro e facada – o povo tem essas bobagens em crendices.
A mulher queria a ele, também, de completar o outro, ao certo. Pois, então!... Deveriam combinar pra ter uso e benefício sem prejuízo de nenhum dos dois, naquela lonjura isolada do mundo. Mas, não! Brigaram e Mulinha levou uma coça. Ficou na pior.
Tiborna empenhou mais corretivo, caso Mulinha não se atentasse de apartar da princesinha. O minguado parecia no cabresto, adomado, concorde. Qual nada! Enchouriçou foi mais!... Arapuou o malino!  Espreitava um só vacilo do Tiborna, e, sucedeu. Tiborna, mais forte tomador de gole... Facilitou.
Mulinha trovejou uma foiçada, golpe certeiro no pescoço dele. Tiborna teve muita sorte! Distorceu. Deu um galeio aqui. Fugiu de acolá. Mas, não rompeu com a cabeça... A foice encontrou o tampo da testa dele e o gume entrou. Ela encravou lá. Mulinha, ao certo, queria decepar de vez, a cabeça; despescoçar o Tiborna. Acabar com a falação dele, de importuno e domínio. Mas, assustou com a resistência do osso na testa e Tiborna nem cambaleou...
Aí, cismou; “Esse homem é bruto, uai! Eu conheço”. E, calculou; “Ele vai entornar por de riba de mim. Não foi golpe de morte e Tiborna é duro na queda, por mor de uma briga. Nunca desiste”. Mulinha, então, espanou na carreira; fugiu.
Isso foi o que me contaram, pois, eu não vi. Até aí, eu não estava lá. Foi nesse ponto que eu cheguei...
Tiborna sangrava de esguicho. Pressenti e vi Babel desesperada. Dei por conta e pensei - tá danado! E agora? Aí eu agucei. Pus sentido nos sacos de carvão. Pano apertado vira penso e estanca o sangue. Passei o tecido na rodopa do sangrado, dei volta no gume encravado na testa dele... E, nada de estancar. O trem estava feio, marejava sangue de jorrar cachoeira.
- Esse homem morre aqui, uai!... E agora? – pensei comigo.
A terra do cerrado dá liga. A gente usa pra um, tudo! Até sutar esses cortes de sangrar. Carvoeira não dispõe de recurso. Machuca de ferramenta ou rabissaca de um pau ou coisa de ofender; usa é isso ou essas coisas.  A gente luta é com o pouco de ter e poder corrigir a precisão da necessidade.
Então, eu sutei com a mistura de terra vermelha de formiga e sangue dele, próprio. Deu visgo bom, uai! Estancou na hora. Melhorou demais! Já tinha algum benefício.
Nisso, eu pensei em tirar o estrupício. Facilitar na condução do transporte. Tirar aquele trem de parecer cabo de panela; cabo comprido da cabeça que pendia de lado até esbarra a ponta dele no chão e escorar. Um trem mais esquisito e feio. Então, eu falei com o Tiborna:
 - Fica firme aí, moço! Segura o queixo com as duas mãos. Vou galear e soltar a ferramenta.
Menino!... Foi eu pegar no cabo e dá um galeio; Pra quê? Meu Deus do céu!... Deu um creeeck na cabeça dele... Horroroso de ressentir nas palmas das mãos na ponta do cabo e ouvir chacoalhar da ressoada, distante. A cabeça queria arrancar o tampo. Ô trem feio, sô! E me deu nervoso, de pensar:
 - Agora danou!... Acabo de matar o homem e vou ter de explicação na polícia. Encravo, uai!
Então, deixei a foice pra lá. Não ia bulir com aquilo de tirar mais, não! O trem podia complicar, uai!... Né mesmo? Abandonei o pensado. Falei comigo:
- Agora, é botar esse homem no carro e chispar pra Curvelo. A solução!
Hum!... Naquela embrulhada, ainda tinha um, outro, porém!... A carvoeira encravada no meio da coivara; trançado feio de mato fino excomungado. O carro passa tirando a tinta, no estreitinho da estrada, a conta e sutado, cercado de galhada alta, na beira. Não dá empenho nem de abrir a porta; mundeo apertadinho. Calculei comigo;
- Tiborna vai dentro do carro. O cabo da foice, na banda de fora, balançando. Aquele trem vai tropeçando, de bate-bate nas galhadas até sair na banda de lá. Esse homem arranca o tampo da cabeça. Vai morrer de novo, no caminho. Olha o encravo. Outra vez? Meu Deus!...
Estava sem jeito.  Aquilo me pôs sem saída. Então, eu lembrei;
- Tenho uma machadinha de muito cuidado. Coisa fina e de luxo, de carinho até de capa, para não derrear o corte, fazer dente e cegar o gume em um bate ou coisa assim. Vive amoladinha comigo; de fazer barba! Trago a danadinha bem guardada de gume, dentro do guarda-mala do carro. Coisa pra uma necessidade. Aquela era a hora dela, uai! Olhei de banda. Vi um toco assim, mais faceiro.  Então, falei com o Tiborna:
 - Aguenta firme aí, homem!... Segura o cabo sobrante e coloca a cabeça do lado com o cabo em riba desse toco. Apoia bem! Vou cortar a sobra do cabo. Assim você vai caber mais confortado no carro. Eu vô levar você pro Curvelo.
Tiborna é homem valente. Cheio de estrupício, de iziquiziras e opinião; essas coisas. Não aceita ordem. Mas, ele aquiesceu na minha fala. Esvaneceu e postou a cabeça no jeito do informe.
Mirei bem no cabo da foice; o ponto da mira no ladinho assim, da cabeça dele. Mas, eu ia bater destorcendo. Dei uns três dedos de garantia; pra fugir da cabeça dele e do encabador da foice. Se batesse ali, pegasse no encabador, podia a foice fazer cunha e estrondar, arrancar o tampo da cabeça dele. Mas, eu tenho a mão certeira. Sou prático da vida e sei medir o risco. Já mexi com um, tudo e disso eu sei e dou certeza.
Então, naquela segurança toda, achei a mão num golpe só de tiro e certeiro. Separei num corte de navalha: a foice na cabeça, pra cá e o resto do cabo dela, pra lá. Botei o Tiborna no carro e chispei; trouxe pro hospital... O carro é sangue só. Da minha parte eu fiz o possível.
Agora, o caso está entregue, doutor. O resto é com o senhor e Deus... que ajude!


Josemar Alvarenga                                 Venda Nova, 13/06/2010

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