terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Palavra certa, momento errado

Palavra certa, momento errado



Abel Fagundes Fernandes – set / 2012

                          Isso todo mundo sabe: Não há nada melhor do que fazer a coisa certa, na hora certa; Usar a palavra certa, na hora certa e também no lugar certo. Mas todo mundo também sabe, que não há nada pior que fazer a coisa certa na hora certa, usando a palavra errada; só da confusão, e que confusão.
                          Próximo é uma palavra muito comum e, por sinal, muito usada por todo mundo e em  todo lugar.
                          Próximo d’aqui, próximo d´ali, o próximo ano, o próximo Natal, o próximo pagamento, o próximo emprego, o próximo casamento, o próximo tratamento. O próximo passeio, o próximo aniversário: o próximo é infinito etc, etc, e etc.
                          E assim vai por aí, e sem fim com o próximo, para o próximo capítulo; o próximo conto ou o próximo caso, que é contado assim:
                          Algumas pessoas vivem com o próximo, de segunda a sexta, de 10:30 às 15:00 h, vivem simplesmente com o próximo.
                          É o caso da Filomena, que trabalha no caixa de um restaurante, de segunda a sexta. Trabalha ali, para receber o pagamento do pessoal que almoçou e que está na fila, esperando a sua vez para pagar. Quando um termina, Filomena fala logo: o próximo. Terminou e ela fala logo: o próximo e assim é o dia a dia da Filomena. Quando alguém termina, ela grita logo o próximo. E fica assim, com o próximo, entra dia e sai dia, entra semana e sai semana, da mesma maneira, sem mudar nada, com o próximo.
                          Um dia, ela falou com próximo que ia pagar: Vou me casar no próximo ano e a pessoa pergunta: Filomena, por acaso você vai se casar é com alguém que trabalha aqui no restaurante? Filomena responde: Não. Vou me casar com o Deraldino, ele não trabalha aqui e, por sinal, no momento está desempregado. Por enquanto, está fazendo uns bicos por aqui, por ali e assim vamos arrumando uns trocados a mais. É melhor assim do que ficar sem fazer nada e ficar pedindo dinheiro na rua. Enquanto isto, ele está em busca de uma coisa melhor.
                          O tempo passa mais depressa do que se esperava. Vem de novo a Filomena a falar: Vou me casar no próximo mês, e quando chega o mês e a semana, ela fala: meu casamento vai ser no próximo sábado.
                          E vai falando com um e com outro. Quando chega alguém e pergunta: Onde vai ser mesmo o casamento, Filomena? Filomena responde: o casamento vai ser lá no meu bairro, numa Igreja que fica próximo onde moro. E ela continua falando: Depois do casamento vai ter uma recepção para os convidados, no salão que fica ao lado, à nossa direita, bem próximo da Igreja.
                          Durante o casamento, os conselhos do padre, falando, explicando e advertindo que casamento é coisa muito séria. Séria mesmo! Não é só “rala rala” não: tem que ser assim, tem que ser assado, tem que ser um só para o outro, tem que obedecer rigorosamenteo o 9º mandamento: nada de ficar aí desejando a mulher do próximo, viu Seu Deraldino. E felicidades para vocês e para os próximos que virão.
                          Terminado o casamento, os cumprimentos na saída da Igreja. Mesmo. Fila formada, e de um em um, eles vão recebendo os cumprimentos, abraços beijos, desejos de muitas felicidades era o que não faltava.
                          Como em tudo e em todo lugar, sempre tem alguém mais curioso do que os outros, querendo saber de tudo, ou de quase tudo. E resolve perguntar: Vocês vão viajar? Imediatamente, Filomena responde: Claro! É claro que vamos. Filomena esperava que a curisodade do convidado tivesse terminado por aí. E o curioso que saber mais ainda: Vocês vão para onde? E me desculpe a minha curiosidade, mas é porque eu gosto de saber de tudo o que acontece no casamento, para que eu possa contar para quem não veio. O jovem casal, muito educado, no momento, responde: Não se peocupe, nós entendemos a curiosidade das pessoas, então respondendo o seu desejo, nós vamos para um lugar que fica próximo à cidade dos pais do Deraldino. Está claro? Bem... Claro não está! Mas simplesmente o curioso não teve mais coragem de perguntar mais nada, nem mesmo onde fica a cidade dos pais do Deraldino. Teve que simplesmente se contentar com a resposta dada pela Filomena.
                          Mesmo antes de terminar a festa, eles, Deraldino e Filomena, despediram de todos e se madaram. Tinham que pegar o ônibus para ir ao lugar da Lua de Mel, que omitiram nome.
                          Mas vai dar tudo certo. Chegando na rodoviária do bendito lugar, procuraram um hotel, que no plano ficaria próximo à rodoviária. E deram sorte que encontraram. Fica tão próximo, que nem precisou de um menino para ajudar carregar a bagagem, que não era tão grande assim. O Deraldino, rapaz novo e forte, se encarregou de levar tudo: Jogou as coisas nas costas e se mandaram para o Hotel.
                          Logo logo chegaram ao hotel. Hotel mesmo, não era. Era mais uma simples casa de hospedagem, que costuma receber pessoas que estão viajando e, por acaso, passam por aquele lugar. Mas como estava tudo conforme programado: ser barato, não ter luxo, tinha o que era mais importante e necessário no momento, “ser barato”.
                          Precisamos economizar, falou Filomena. Vamos ficar só uma noite. Vamos economizar. Economizar no inicio da vida, para quem é pobre, é muito importante e não é nada fácil. Viemos aqui simplesmente para satisfazer um desejo nosso: Ser a Primeira vez.
                          Primeira vez tem que ser especial por que depois é a mesma coisa, no mesmo lugar para sempre. Depois não muda mais nada. Depois vira rotina. É simplesmente cumprir: o que é dia é dia, o que é noite é noite e mais nada.
                          Chegando à casa, que não era mais do que um confortável e barato hotel, como esperado. Encontra-se uma casa com a porta fechada.
                          O jovem casal olha assustado, diante da situação jamais esperada, principalmente para aquela primeira vez. Aquela primeira e sonhada vez. Estava sendo simplesmente uma aventura. Olha para um lado, para o outro, para baixo e para cima quando vêem uma plaquetinha com as inscrições  “Aperte a campainha por favor. Obrigado”.
                          E assim o Deraldino o fez, obedecendo as ordens da Filomena. Nesta hora, a responsabilidade é do Deraldino e não da Filomena.
                          Chega à porta um homem, já com cabelos grisalhos, simpático e educado. E diz: Boa Noite, meu jovem casal, que seja bem vindo À NOSSA Hospedagem. Meu nome é Tobias, estou às ordens de vocês. Mas como vocês estão com pouca bagagem, imagino que estão querendo um quarto de casal por apenas uma noite. Estou certo? Falou o Tobias. Eu tenho um quarto que vagou agora a pouco, vocês são de sorte. Vão se hospedar nele. Vocês podem se sentir a vontade. E continua falando: Vocês vão ficar no quarto que fica próximo ao banheiro, lá no final do corredor. E caso necessitem de mais alguma coisa. Eu, estou às ordens lá na porta, é só chamar. Uma Boa Noite para vocês.
                          E para lá foi o jovem casal localizar o quarto. Ao chegar, quando viram o quarto, Filomena ficou decepcionada. Eles queriam um lugar barato, sem nenhuma riqueza, mas também não era aquela pobreza que estavam encontrando, falou Filomena, por ser a primeira vez. A culpa é sua, Deraldino, com esse seu bendito lugar, próximo da cidade dos seus pais. O que tem a ver a nossa Lua de Mel com a cidade dos seus pais. Falou Filomena, e Filomena falou brava. Tudo bem, querida. Em voz mansa falou Deraldino: Você tem toda razão. Primeira vez, tem que ser uma coisa melhor. Falou assim o Deraldino, mais para acalmar a Filomena, e também com medo de tudo terminar por ali, mesmo antes de acontecer qualquer coisa melhor.
                          Chegando ao quarto, preparam tudo antes de começar realmente a Lua de Mel: Toalha no buraco da fechadura da porta, que dar para o corredor, pois a porta não tinha chave. Verificaram bem a janela que dar para rua, para poder ter a certeza que iam ter uma noite tranquila. Tinha que fazer isso mesmo. Na frente do quarto, o corredor, do outra lado, a rua. A gente em Lua de Mel não pode ficar exposto aos curiosos do lugar, próximo da cidade dos pais do Deraldino e, também, do curioso que queria saber para onde a gente ia viajar.
                          Até que enfins estamos sós. Deraldino falando para Filomena: Estamos no nosso quarto, então podemos começar agora a nossa Lua de Mel, e assim falou o Deraldino para a Filomena e realmente começa a Lua de Mel do jovem casal Deraldino e Filomena. Sem a preocupação de que hora ia terminar.
                          Tinha apenas uma tolerância até  às 11:00 h, para não pagar outra diária.
                          Mas tudo bem. Pelo que está programado para ser feito, vai ser feito tudo sem faltar nada, e ainda vai ter tempo de sobra para uma relaxada, antes de ir embora.
                          Os dois no quarto. Brincadeira para lá, brincadeira para cá. Beijos e mais beijos, abraços, “rala, rala” como disse o padre, e mais tudo de uma verdadeira Lua de Mel. Esses são os preparativos para o próximo passo. Cada um na sua posição correta.
                          Mas num certo momento, o Deraldino, já cansado de tanto movimento e quase sem respiração fala: Filomena, meu bem. Minha querida. Terminei.

                          E Filomena imediatente gritou: o Próximo!

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