sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O melhor é você mudar...

O melhor é você mudar...


Pedro Lara, vaqueiro desgostoso com o abandono no campo, mudou-se à capital.
Engrossava a fila dos desamparados fugidos da vida rural. Procurou seu antigo patrão. Este indicara a ele, na periferia próxima, loteamento clandestino. O dono construíra um cortiço. Pedrinho achou ótima ideia. Muita gente da sua terra ali morava. Arrendou uma porta à família e lá mudou-se. Tudo era novidade e bom; a cidade, as oportunidades, o cinema com faroeste de Rock Lane e outras facilidades. Não gostava da polícia. Isso não. Fora jagunço do antigo patrão. Não matara nem judiara de ninguém; verdade. Mas, as histórias da polícia o amedrontavam.Era medo de ser preso em cobrança do seu passado e ter que ficar pelado na cadeia, entrar na sova de cacetete; judiação. Contudo, vivia bem.Só não contava mudar-se para o cortiço, algum tempo depois, a velha Silivéria; confusa e malina conhecidíssima dele, lá, na terra natal. Idosa futriqueira, caça rela faladeira de aprontar mafuá. Ela inventara fuxico com a Izabel, mulher do Pedro, em quase separação do casal. A chegada da língua de trapo atrapalhou o ambiente. Perdeu o sossego; virou inferno. Pedro a evitava, não a cumprimentava; nada de bom dia, boa tarde. Menos ainda boa noite; ela podia inventar ele querendo engraçar com ela. Olha a confusão!... Isabel era o cão, de ciúmes. No Bonserá, naquele cortiço o sanitário era coletivo. A água também, retirada da cisterna de trinta e seis metros de fundura, no sarilho. Pedro viu Silivéria entrar no sanitário, uma fossa seca. Pensou dar tempo a ela bem usar a solidão, a não criar motivo. Não aguentando, postou-se na porta da casinha. Silivéria o viu pela greta. Ficou trancada lá durante todo o dia, naquele furdunço catingoso. Ela escutava algum passo diferente, punha-se a gritar que tinha homem querendo agarrá-la; tentava incriminar o Pedro. Então, ele a via e sumia. Pedro caminhava para tirar água na cacimba, lá vinha Silivéria resmungando, caçando rela, querendo tirar água na mesma hora, brigando por conta da manivela. O relacionamento acirrou e envolveu mulher e filhas dele.
 Um belo dia Pedrinho chegou tenso, apavorado. Desabafava aos conselhos de seu protetor.
- Compadre, espia bem a véia Silivéria!... Vou mudar de lá. O trem tá feio!...
- Mas, você não estava gostando do lugar?
- Pois é! Foi chegar a Silivéria... Aquela mulher é o cabunclo puro!... É o demônio encarnado no capeta. Só pode! Ela não é completa da cabeça, não! Mulher doida maluca.
- É só deixar ela pra lá. Não liga pra ela, não! Se, é assim nem cumprimente a danada.
- Não adianta! Ela é enredadeira dos infernos. Olha o que ela falou. Presta atenção no perigo. Ela disse que vai passar a foice no pescoço dela, lá e suicidar ela. Depois, vai pular de ponta cabeça dentro da cisterna de trinta e sei metros de fundura. E vai morrer afogada. Agora, mira e veja! Depois disso tudo, sem eu ter culpa nenhuma. Ela disse que vai à polícia e vai contar que fui eu quem matou a danada. Espia bem!... A mulher é louca!... Não tem jeito. Agora, se a polícia me prender!... Estou perdido. Ela morta não tem como eu provar minha inocência...

- Você tem razão. Está muito perigoso! O melhor é você mudar...

Josemar Alvarenga



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