segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Ação Social

AÇÃO SOCIAL
                                                                                      

O Lions Club local se propôs em mutirão à “Ação Social do Ano”. O consorciado Macarrão sugeriu reformar a miserável morada daquele pai de família numerosa; um sinistrado na beira-linha de trem, de levar nada a lugar nenhum nem a ninguém.

Alvenaria mal-e-mal preenchida aos sopapos de massapé sobre trançados de varas em amarras de cipó. Paupérrimo enchimento desfez-se em blocos e pelas gretas, expunha os amarrilhos da tapera coberta de palha buriti e o oco de interminável miséria naquele sofrível cupinzeiro.

O mutirão derrocou o pau-a-pique, limpou o terreno, demarcou as caixas alicerces. Cavava com empenho, empunhado de ferramentas não costumeiras. Todos lidavam.

O beneficiado de cócoras na elevação próxima pitava um paieiro. Tranquilo vigiava o serviço. Seria o feitor? Macarrão em protesto:

- Que isso?... Rapaz, somos empresários, comerciantes, médicos, advogados. Até o juiz de direito e o promotor vieram ajudar a derrubar seu aranzel, cavar a base e construir sua nova casa. Você fica aí!... Agachado? Olhando? Pitando? É fiscal do bem feito? Você é o beneficiado e não vem ajudar? Meu caro, você não tem vergonha, não?

- “Prá falá bem verdade, num carece não, sô Macarrão! Tudo foi de combina, com o sinhô, uai! Ô será que num foi!... O sinhô esqueceu?
Eu tavo bem na minha casinha humilde, forgado com minha famía no conforto de podê dá. Ocês chegaro e falô que ia pô reparo na minha tapera e s’eu aceitavo. Quem num qu’é miorá, sô Macarrão? E de grátis? Aceitei, uai!...
Eu num fui chamado pr’essa proeza de empreito, não sinhô e nem chamei. Se assim num fosse, eu nem num queria, não! Num aceitavo, uai! Prá quê? Eu tavo bem!...
Quem achô defeito e botô quizila, achano que eu tavo ruim foi ocês. Quem de inventá essa moda foi ocês. N’é não? Culpa eu não, uai!...
Agora, ocês vem de botá minha casinha no chão... Num foi? Ô tô inganado? As vez eu tô inganado sem sabê, n’é mesmo?...   
Antão, agora, ocês arruma prá lá, qu’eu num quero nem sabê. Ocês derrubô minha tapera. Podia num sê oro sobre o anil; ela me servia. Pois, antão!...”

 Josemar Otaviano de Alvarenga


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