sexta-feira, 1 de abril de 2016

O Moribundinho

O Moribundinho

Ildeu Baptista de Oliveira


Logo que me formei, fui trabalhar em Sabará como empregado da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. Entre nossas obrigações, atendíamos pelas manhãs no ambulatório da Santa Casa e também aos doentes internados na enfermaria. Logo que assumi, topei com o paciente caquético e encarquilhado que já se encontrava internado há algum tempo. A radiografia de tórax revelou várias infiltrações localizadas nos ápices pulmonares.
Minha suspeita foi de tuberculose pulmonar, mas o paciente não apresentava escarro para a pesquisa do bacilo de Koch. Recém-formado, com a ciência na cabeça cheia de filigranas, decidi submeter o paciente ao lavado brônquico. Fui pessoalmente ao posto de saúde localizado na Alameda Ezequiel Dias para agendar o exame. Na data marcada, acordei cedinho, fui ao hospital e com a ajuda do Irineu, enfermeiro espadaúdo, colocamos o paciente e uma cadeira de rodas no meu fusquinha e rumamos para Belo Horizonte. Estacionei defronte ao posto de saúde e o levamos diretamente à sala de exames na cadeira de rodas. Fomos atendidos por uma enfermeira que nos orientou a colocar o paciente sentado em uma banqueta. Logo a seguir, ela iniciou o procedimento. Nesse momento, observei, com pavor, que as pupilas do paciente se dilatavam assombradamente. “Parada cardíaca”, pensei. Imediatamente, afastei a enfermeira e comprimi o tórax do paciente notando aliviado que as pupilas voltavam a se contrair. Foi um grande susto para todos, principalmente para a enfermeira que passou a vociferar e a me xingar: “Seu maluco! Trazer esse moribundo para morrer aqui na minha frente.” Então, voltamos com o paciente para a cadeira de rodas e saímos disparados pelo corredor, com o rabo entre as pernas, sendo seguidos pela enfermeira que não parava de nos insultar. “Seus malucos, irresponsáveis, malditos, sumam daqui. Não me apareçam nunca mais.”

No caminho de volta, fiquei remoendo com meus botões: chega de academicismo, deixa de ser bobo. O que você vai fazer é iniciar o tratamento para tuberculose e danem-se as aulas teóricas e as veleidades diagnósticas. Assim fiz. Em poucos dias já se notava a melhora do quadro clínico. O paciente passou a se alimentar muito bem e a ganhar peso. Entretanto, permanecia acamado em virtude da anquilose dos joelhos. Solicitei ao Agostinho que me desse alguma orientação a respeito. O Agostinho era médico muito competente e fez, para que eu visse, uma manobra que consistia em estender as pernas usando certa força para tentar desencarquilhar o moribundinho. Diariamente, os enfermeiros praticavam a manobra, apesar da dor que o paciente apresentava nesses momentos. Aos poucos, a anquilose foi cedendo e o paciente ganhando corpo e disposição, até que começou a deambular, andando pela enfermaria e até ajudando na limpeza e na arrumação das camas. Depois de certo tempo, recebeu alta para continuar o tratamento em nível ambulatorial. Finalmente, dei-o por curado. Às vezes, eu cruzava com ele pelas ruas de Sabará. Sempre ele me fitava com o olhar pingado revelando a gratidão que sentia por mim. 

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