quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Ensaio sobre o Real, o Simbólico e o Imaginário

Ensaio sobre o Real, o Simbólico e o Imaginário




Trata-se de um ensaio, portanto sujeito e desejante de críticas e ponderações. Iniciamos com Jacques Lacan citado por Messias Eustáquio Chaves no livro “Psicossomática” editado por Geraldo Caldeira e José Diogo Martins. Segundo Lacan, o funcionamento psíquico do ser humano estrutura-se em três registros ou três dimensões que se articulam, se entrelaçam. Essas três dimensões ou três campos são: campo do Real, do Simbólico e do Imaginário. O real, do ponto de vista da Psicanálise, é um conceito que produz uma significação diferente do que denominamos realidade. Real não é a mesma coisa que realidade. A realidade precisa dos três campos ou dimensões para existir. O real não precisa dos outros campos, pois ele basta a si mesmo. O campo do real é o campo da “coisa” (Das Ding) daquilo que não é nomeável, daquilo que escapa à simbolização, isto é, não pode ser descrito por palavras. “Aconteça o que acontecer, amanhece”. Ao contrário da realidade, o real existe por si mesmo, escapa ao nosso desejo e ao nosso poder. Queira ou não, o sol se põe e nasce. Queira ou não, a tempestade, o furacão, a seca advêem e o ser humano nada pode contra isso. Portanto, o real escapa à subjetividade humana, escapa ao desejo de o ser humano ter domínio completo sobre si mesmo. O instinto de sobrevivência pertence ao real. Assim, a sobrevivência do indivíduo insere-se no real e inclui as necessidades de sobrevivência: alimento, moradia, sustento, descanso, dinheiro (para as mínimas condições de sobrevivência). O instinto de sobrevivência da espécie – o sexo, a função sexual, o instinto sexual – são necessidades contidas no âmbito do real. Quando não satisfeitos, o oposto da satisfação da necessidade chama-se PRIVAÇÃO. A satisfação leva ao prazer. Quando o bebê nasce, ele só tem o real do seu corpo físico, seu psiquismo ainda não registrou a dimensão do real, do simbólico e do imaginário. PARTE I REGISTRO DO IMAGINÁRIO Avançamos agora para a segunda dimensão ou campo: o imaginário. Como a própria palavra diz, o imaginário é feito de imagens, de fantasias, de crenças, de ilusões, de impressões, de conceitos e preconceitos. Podemos dizer que algum tempo após o nascimento, toda imagem do objeto ou coisa que é captada pelo bebê através do olhar será inscrita e registrada no seu psiquismo como pertencendo ao campo do imaginário. Tudo aquilo que o ser humano capta e internaliza por meio do olhar vai, pouco a pouco, se estruturando como seu imaginário. A primeira constituição ou estruturação do imaginário se dá na experiência do estágio do espelho, por volta dos seis meses de idade, quando há pela primeira vez a apreensão total da imagem desse outro-si mesmo. Segundo Lacan o outro que aparece no espelho é, não apenas, o objeto material-espelho que reflete a imagem da pessoa que olha, mas principalmente, o rosto ou olhar da mãe, do pai ou de outra pessoa significativa para a criança. Do lado imaginário, temos a demanda e conseqüentemente, pelo seu par oposto, a frustração. O carinho, aprovação, amparo emocional e social, reconhecimento do outro, ser amado são alguns exemplos de demandas humanas – Quando sentimos falta de qualquer um desses elementos estamos no registro da demanda. As demandas são essenciais, intrínsecas à natureza humana. Alguém que negue não as possuir está enganando a si mesmo. A satisfação da demanda nos faz felizes. Inscreve-se um outro tipo de prazer, o prazer da alma, do espírito. A frustração da demanda provoca tristeza, dor, solidão, abandono. O Simbólico –   Campo e dimensão do simbólico O campo do simbólico é o campo da linguagem, escrita e falada. Campo do símbolo. De maneira clara e simples, todos os sons, ruídos, palavras e conceitos que entrem pelo ouvido da criança, desde pequena, vão constituir e se estruturar como campo da linguagem. Letras, sílabas, palavras, fonemas, números, signos, ícones constituem algo que tem um significado que vão representar o sujeito que fala para outros significantes presentes na cadeia associativa cujo efeito significativo ou sentido só aparecerá em razão das ligações contingenciais entre uma palavra e outra. Só terão significado se houver um encadeamento lógico entre as palavras que irão constituir a frase, que darão um sentido ao que se diz e que possam ser apreendidos e captados pelo outro a quem se fala. Pelo discurso do sujeito apreende-se a verdade do desejo dele. Portanto, do lado do simbólico inscreve-se o desejo e conseqüente pelo seu lado oposto a castração, o impedimento real ou imaginário de sua realização. O ser humano civilizado sabe, aprende, a adiar o desejo ou impedir a sua realização. O processo civilizatório baseia-se na castração do desejo para a realização da convivência. No terreno do simbólico os desejos humanos incluem a realização como pessoa, como profissional, descobrir, inventar, criar, tomar iniciativa, participar, amar, compartilhar. A realização dos desejos exige trabalho, persistência, perseverança, esperança, motivação, se faz às custas de, é um processo, não cai de “mãos beijadas”. Quando sentimos falta de qualquer um  desses elementos estamos no campo do desejo. A insatisfação se dá ao nível da castração simbólica. A satisfação do desejo provoca uma sensação de alto natural, o prazer de conseguir algo que se busca. Seguindo adiante, cito agora José Diogo Martins. Cada pessoa possui os registros dessas três dimensões em ordens e grau de importância diferentes. Se há predomínio dos objetos da necessidade registrada no campo do real, a tendência da pessoa será de consertar, curar, restituir, substituir, fazer, construir. A tendência da pessoa será para atividades técnicas. Se, entretanto, no mundo interior da pessoa houver predomínio dos objetos da demanda, registrados no campo do imaginário, ela tenderá para reduzir a tensão, dar apoio, elevar a auto-estima, ser carinhosa e atenciosa. Se por outro lado, o campo do simbólico predominar na estrutura psíquica do indivíduo, ele se voltará para atender as pessoas no sentido de promover crescimento, realizações e capacidade para criar. Evidentemente que haverá um substrato bioquímico para os sentimentos provenientes da satisfação ou não das necessidades, das demandas e dos desejos. Não é possível que os movimentos e ações, sentimentos e pensamentos surjam do nada. Sempre há neuro-transmissores envolvidos no processo, porém esse é um tema que não abordaremos neste ensaio. PARTE II O REAL, O SIMBÓLICO E O IMAGINÁRIO NA MATEMÁTICA Os símbolos representam a essência da linguagem matemática, aceitos universalmente o que confere à matemática o predicado de ser uma língua universal. Os algarismos 1,2,3,4,5,6,7,8,9… são os símbolos matemáticos mais conhecidos. Embora sejam chamados de  algarismos arábicos, na verdade são de origem indiana. O zero representado pelo símbolo 0 também é uma invenção proveniente da Índia e representou um avanço tecnológico: um símbolo para representar o nada, o vazio. Os números inteiros  vieram a formar as frações, isto é, a razão entre dois inteiros por exemplo: 2/3, 3/4, 4/5 etc. Posteriormente, surgiram os números irracionais, por exemplo √2. Irracional em matemática tem um significado diferente do que na medicina. Razão em matemática é simplesmente a divisão entre dois números. Outra barreira psicológica vencida pelos matemáticos refere-se aos números negativos, por exemplo -1,-2 etc. De modo que todos esses números podem ser representados por pontos em uma reta ordenada chamada reta dos números reais. A última barreira psicológica vencida pela teoria matemática consiste nos números imaginários, representados pelo símbolo i = √-1. O número complexo z = a + bi É a expressão do simbólico, do real a e b do imaginário i. O número complexo é representado por um ponto no plano, não mais na reta real. As coordenadas do ponto P representam o número complexo.



 O eixo dos x é chamado eixo real, o eixo dos y é o eixo imaginário. PARTE III O REAL, O SIMBÓLICO E O IMAGINÁRIO NA FÍSICA Matéria, espaço e tempo. Matéria ocupa lugar no espaço. Faz parte da realidade, a matéria bruta, inanimada. Porém, o homem é capaz de agir, de modificar a matéria. Portanto, tem domínio sobre ela, limitado é claro. O tempo, entretanto, é algo que escapa ao nosso desejo, à ação do homem. O tempo flui, independente de nossa vontade. Todos sabemos que nossa vida findará, que o tempo não pode parar, não se pode voltar atrás, o que passou, passou. O que podemos é aproveitar o tempo, viver o presente, o momento, com intensidade, com fruição. Curtir o momento presente é viver o presente que Deus nos dá, nos oferece. É prestar atenção, é dar atenção, é estar atento. É o que podemos fazer com o tempo. Quando Isaac Newton escreveu sua obra prima “Os Principia” precisava definir o tempo. O tempo real, absoluto de Newton é assim definido por ele: “O tempo real, absoluto e matemático, em si mesmo e em sua própria natureza, flui uniformemente independentemente de qualquer coisa externa,  é também chamado duração”. E, assim define Newton o espaço: “o espaço absoluto, pela sua própria natureza, indepedentemente à referência a qualquer coisa externa, sempre permanece homogêneo e imóvel. ESPAÇO E TEMPO NA TEORIA DA RELATIVIDADE RESTRITA DE ALBERT EINSTEIN Quando Einstein publicou em 1905, seu trabalho intitulado “Sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento”, espaço e tempo absolutos de Newton foram colocados em xeque. Corpos em movimento sofrem uma contração na direção que se movem. Relógios em movimento andam mais devagar do que quando estacionários. Quanto mais veloz viajar o relógio, mais lentamente será seu ritmo. À velocidade da luz, o corpo se contrai em um plano, o relógio cessa de bater, o tempo pára. Espaço e tempo passaram a ser relativos, modificam-se com o movimento. O TEMPO IMAGINÁRIO DE HERMAN MINKOWISKI Minkowiski foi professor de Einstein na famosa ETH. Utilizando as equações deduzidas por Einstein, ele estabeleceu um universo quadridimensional no qual espaço e tempo estão inextricavelmente ligados, introduzindo o conceito de tempo imaginário. Para ele, a noção do espaço-tempo deveria modificar em seus fundamentos a maneira como a humanidade deveria entender a natureza da vida no mundo material. A visão de Minkowiski permitia distinguir a situação exata entre um lugar e um tempo no cosmo de todas as demais. Era possível descrever a linha do universo de uma pessoa ou de uma partícula, a história pessoal de cada um no decorrer do tempo de sua existência. Dessa forma há uma linha única e específica no espaço-tempo que descreve cada pessoa, às vezes encontrando-se, às vezes afastando-se de outras, às vezes mudando de residência, de emprego, etc. Tudo isso está descrito na história de cada pessoa através do espaço e através do tempo. O tempo real significa o presente, o momento que estamos vivendo. O tempo imaginário é o passado e o futuro representado por imagens que carregamos conosco do passado e que projetamos para o futuro. As profecias, as adivinhações, os prognósticos localizam-se no tempo imaginário futuro. O passado, por outro lado, pode determinar nossas ações atuais. Segundo a psicanálise, motivações inconscientes são capazes de orientar nossas ações. Desprender-se da cadeia das ações preconceituosas exige uma dose de generosidade. Generosidade é dar além do necessário, é ser mais do que se espera, é romper com os grilhões de atitudes sedimentadas, individualistas e escravizadoras. Termino citando o evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas: “Se alguém tomar o teu manto, deixa levar também a túnica. E se fazeis o bem somente aos que vos fazem o bem, que generosidade é essa? E se prestais ajuda somente àqueles de quem esperais receber, que generosidade é essa?”.

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